domingo, 19 de dezembro de 2010
Sempre precisei do contraponto a minha inaptidão à vida.
Este contraponto são elas. Algumas somente memórias, outras mais professoras e ainda àquelas do desespero.
Mas neste momento me sinto bem, parece-me que as lembranças, os aprendizados e os desesperos apaziguaram-se.
Enfim, posso lê-los com mais destreza, mas ainda falta a paciência.
Não admito trocar a paixão pela temperança. Pois, todo o dia, em que pareço vislumbrar uma paz eterna, ocorre de me jogar do trem.
Quando tudo sai do eixo, relembro do perigo de viver, mesmo rastejante a volta é triunfante.
A guerra!
sábado, 14 de agosto de 2010
Supertramp
Primeiramente o que ele busca é soltar-se das amarras do dinheiro e de uma vida convencional, que como dizia um amigo meu, lhe daria a oportunidade de possuir um “Gold Visa”, ou seja, usufruir de tudo que uma pessoa padrão gostaria: dinheiro e respeito.
Para isso nosso protagonista sai pelo mundo e usufrui de experiências, suas e de outras pessoas que o ensinam o penoso e o sereno da vida. Mas, ainda insatisfeito, arrisca-se mais, saí em busca do isolamento, segue o seu percurso para o Alasca e lá se isola por completo.
Neste momento, a busca da liberdade se concretiza, o afastamento total a independência em relação aos demais, o fim da vaidade.
É neste ponto que os medos perdem o sentido e só resta um desejo possível, a sobrevivência. Nosso herói se da mal neste último desejo, a natureza mostrou-se imbatível ao desafio.
Parece-me importante refletir sobre a “auto-suficiência”, a noção de liberdade que surge a partir dessa possibilidade. O que mais pode parecer antagônico neste processo é o medo de amar, ou não. A incapacidade de amar é assustadora não pelo sofrimento derivado da falta de sentimentos, pois a falta deles não é um motivador do sofrimento, mas sim a sua existência. Não amar é sentir se alijado do prazer que ele proporciona, algo próximo a sentir se feliz, um sentimento que assusta, pois ele sempre precede momentos piores.
Sendo assim, a busca pela “auto-suficiência” através do isolamento é de fato uma busca pela liberdade, com o fez Christopher McCandless, contudo este auto-conhecimento quando se esta em sociedade é caótico, mesmo sendo fundamental para a liberdade.
Outro inibidor da liberdade é o contraponto que ela faz à felicidade, pois ela impede realizações de completude que estão diretamente relacionadas a uma projeção em outra pessoa ou coisa. Como podemos ser livres e dependentes simultaneamente?
Se o que nos move é o desejo, mesmo que seja o desejo primário pela sobrevivência, a liberdade já se distancia, e se posteriormente o que nos moverá é o desejo de aceitação, aí já era, seremos escravos para sempre.
domingo, 8 de agosto de 2010
Anuncio meus cacos, já fui um jarro trincado, agora restaram apenas os cacos.
Já vivi isso, me espatifar de cima de uma mesa, em queda livre. Mas agora parece que os pedaços espalhados são menores e mais difíceis de catar. Espalharam-se por toda a sala, embaixo do sofa, pela fresta da porta.
Será que vão faltar pedacinhos, ficarei com buracos pelo meu corpo? Será que alguém vai se lembrar de ao menos junta-los em um saquinho e deixar no canto da copa, ou, irão varrer e jogar varanda abaixo?
Anuncio meu coração e minha dor, os compartilho com quem vier.
terça-feira, 17 de março de 2009
Favelas
As favelas ainda representam uma ruptura no conceito de cidade, perceptível pelas formas mais sutis de preconceito. Existe um generalizado receio em relação a elas, fruto de um difundido juízo de desordem e criminalidade que lhes é imputado. Através da simbologia que as favelas suscitam acontece uma continua precarização de sua relação com a cidade. Atualmente cada vez mais o narcotráfico se sobrepõe, principalmente através da mídia, à imagem da favela, o que pode tornar, ainda mais, incerto a sua legitimação social e espacial.
A familiaridade cotidiana não reduz necessariamente o estigma e mesmo aqueles que estão próximos às favelas conseguem, com bastante habilidade, manter os seus preconceitos. A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias. Os ambientes sociais estabelecem as categorias que têm probabilidade de serem neles encontrados. Baseando-nos nessas pré-concepções, nós as transformamos em expectativas para determinados grupos e em exigências apresentadas de modo rigoroso, neste caso criamos a categoria do “favelado”. Os olhares dirigidos à favela são carregados de estereótipos e temores, consequentemente este julgamento também se volta aos seus moradores.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Três Poderes em um.
Também é comum a inversão de valores, como a polêmica do uso de algemas. Quantos sofrem diariamente com a truculência policial? Mas quando o alvo das algemas foi o Sr. Daniel Dantas, o Excelentíssimo Ministro Gilmar Mendes, atual presidente do STF, entrou em cena para questionar tamanha crueldade! Em virtude do acontecimento Daniel Dantas recebeu Hábeas Corpus em tempo recorde, justificativa: o Hábeas Corpus havia sido perpetrado antes de prisão. Como? Se ele ainda não havia sido preso, e não tinha conhecimento da prisão, como poderiam seus advogados realizar tal premonição? Pior, como pôde o Presidente do STF agir com tanta naturalidade e tão ligeiro? Sendo que, a lógica que permeiam o judiciário brasileiro inclui uma velocidade de jabuti na tramitação de processos, que para os comuns alonga-se por anos.
Recentemente o também Ministro do Superior tribunal Sr. Joaquim Barbosa denunciou uma prática comum, até naturalizada no STF. Alguns advogados monopolizam a agenda dos ministros, fazendo com que processos recentes sejam julgados antes de processos antigos. Em geral este monopólio é realizado por advogados bem relacionados e que representam os brasileiros abastados. Assim a justiça no Brasil torna-se eficiente a uma pequena parcela da população, como Daniel Dantas e companhia, e morosa para grande maioria da população, que não pode pagar advogados ou utilizam a ineficiente advocacia pública, que se encontra abarrotada de processos.
O judiciário no Brasil tornou-se o único arbitro do jogo. A onipotência de seus representantes demonstra a pífia representação democrática do país, já que a incompetência e má índole de nossos parlamentares e políticos legitimam o arbítrio nem sempre coerente do STF. Dentro do caos dos três Poderes, o judiciário acaba por se impor, devido à inabilidade do Legislativo e a covardia do Executivo. O Sr. Gilmar Mendes que o diga!
segunda-feira, 9 de março de 2009
Eleições
(Texto retirado de:http://caderno.josesaramago.org/2009/03/02/eleicoes/)
By José Saramago
Como sempre, uns ganharam, outros perderam. Estas campanhas eleitorais são monótonas, repetitivas e, talvez o seu pecado maior, previsíveis. São-no aqui e em toda a parte. Contados os votos, uns riem, outros choram. Os triunfadores são generosos, agradecem a toda a gente, os derrotados também, embora a dor lhes trave a efusão retórica. Não agradecem a Deus porque deixou de usar-se, mas beijarão a mão ao bispo na primeira ocasião. Quanto aos eleitores, esses já vão ligando pouco às promessas. Fica tudo para a campanha seguinte, quando se areje novamente a bandeira e, cada vez com menos ânimo, se tente renovar a esperança. Assim vamos andando e, a partir de agora, à espera do seu Godot, isto é, de Obama. Vamos a ver quanto tempo durará a garrafa de oxigénio.
(Texto retirado de:http://caderno.josesaramago.org/2009/03/02/eleicoes/)
By José Saramago
Como sempre, uns ganharam, outros perderam. Estas campanhas eleitorais são monótonas, repetitivas e, talvez o seu pecado maior, previsíveis. São-no aqui e em toda a parte. Contados os votos, uns riem, outros choram. Os triunfadores são generosos, agradecem a toda a gente, os derrotados também, embora a dor lhes trave a efusão retórica. Não agradecem a Deus porque deixou de usar-se, mas beijarão a mão ao bispo na primeira ocasião. Quanto aos eleitores, esses já vão ligando pouco às promessas. Fica tudo para a campanha seguinte, quando se areje novamente a bandeira e, cada vez com menos ânimo, se tente renovar a esperança. Assim vamos andando e, a partir de agora, à espera do seu Godot, isto é, de Obama. Vamos a ver quanto tempo durará a garrafa de oxigénio.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Apocalipse Now.
No decorrer da minha vida uma interrogação sempre foi constante: como e quando o mundo iria acabar! Nasci em 1981, e desde criança constantemente era submetida a esta agonia. De alguma forma o Planeta Terra deixaria de existir, é certo, só restava saber como.
Quem nasceu no final da década de 70 e início da década de 80, passou parte da infância sob a atmosfera da Guerra Fria. Por mais próximo que o mundo estivesse do fim da URSS, a grande luta, Rocky Balboa x Ivan Drago, representava, para mim, a tensão existente no mundo. Constantemente eu era alertado da tenuidade que nos separavam da guerra total, nossas vidas dependiam do humor de alguns homens. Havia na minha imaginação dois sujeitos ranzinzas, um em cada lado do mundo, que permaneciam sentados em uma sala com olhos fixos em uma grande tela cheia de pontos verdes piscando. Do lado esquerdo de ambos havia um telefone, e à frente, como um joystick de Atari, um botão vermelho, que ao ser pressionado destruiria todo o planeta. O polegar destes homens permanecia a
Ano de 1989 - queda do Muro de Berlim. Pronto, não haverá mais a guerra! Como tinha entre 8 e 9 anos, era suficiente para eu acreditar que estávamos salvos. Mas quando menos esperava, um novo fato: um meteoro, que poderia chocar-se com a Terra a qualquer momento. O planeta seria como uma bola chutada pelo Zico, mas ao invés de irmos pro gol, iríamos explodir, sumiríamos, sem ter a quem apelar. Nem eram mais os homens que estavam no controle, mas o acaso. Dependíamos da sorte, estávamos no meio de um universo à deriva, no caminho de milhares de pedras gigantes que flutuavam em direção a Terra. Contudo alguns cientistas refizeram os cálculos e chegaram à conclusão de que não seria daquela vez, mas daqui a alguns mil anos que o meteoro chegaria. Controlei meu pânico, pois mesmo se fosse mentira era melhor a ilusão de que estávamos seguros. Nesse momento pensei em meus filhos, e decidi não tê-los, já que poderiam ser os filhos dos seus filhos os atingidos pelos meteoros caso os cientistas estivessem certos.
Nesta mesma época fui alertado do verdadeiro Apocalipse: o Fim do Mundo em 2000. Assim já era demais, nem os homens, muito menos o acaso, mas sim um castigo! O pior era que, de acordo com minha tia, iríamos morrer no fogo. De acordo com ela O Fim do Mundo anterior havia acontecido pela água, O Dilúvio. Assim sendo, o próximo Juízo Final seria pelo fogo, ou seja, o Fim do Mundo oscilava entre água e fogo. Nessa época a minha maior angustia já não era pela humanidade, mas o meu azar pelo fim do mundo ser exatamente 2 dias após eu fazer 18 anos! Seria adulto finalmente, livre, poderia tirar dinheiro no banco, mas o mundo iria acabar, e eu ainda iria morrer queimado... Como eu preferia que fosse outro Dilúvio! Ainda teria tempo de aprender a nadar, construir uma balsa, talvez uma arca; mas fogo, nem com roupa especial! Pude constatar, 10 anos depois, que o mundo não acabaria. Completei meus 18 anos, e na passagem de ano ainda esperei um terremoto de nível 20, como uma onda remexendo toda terra e expelindo lava por todos os lados, mas não aconteceu.
A década de 90 foi a vez dos Extraterrestres. Em meados de 1990 surgiram o Chupa Cabra e o ET de Varginha, ambos com menor poder de permear minha imaginação, mas a cada caso relatado aos domingos pelo Fantástico, mais aumentava minha apreensão. Além do mais, enquanto os atuais casos eram relatados, casos antigos eram relembrados como o Caso Roswell, no Novo México e Operação Prato, no Pará, acrescentando ingredientes aos fatos. De certa forma, em relação à existência de Óvnis ou ETs, foi menor o medo que a curiosidade. No final das contas, se fosse possível escolher uma forma de aniquilamento, a invasão de outra civilização seria bem excitante e curioso, além do mais iria ter uma boa briga, tipo Guerra dos Mundos e Independece Day!
Em 2001 sentimos um resquício do medo por causa do terrorismo, mas para o Brasil foi quase inócuo, nada que ultrapassasse do cinema para a vida real. Contudo, parece que para os afegãos e os iraquianos de certa forma o mundo vai acabando, assim como para os palestinos e outros povos. Em cada guerra homens e seus joysticks vão causando pequenos apocalipses, encerrando pessoas, famílias, cidades e países.
Chegamos, enfim, à vanguarda dos apocalipses: o Aquecimento Global. Curiosamente ele é um pouco de todos os Fins, pois oscila entre o fogo e a água, os dilúvios e as secas, a fartura e a escassez, a Guerra definitiva e a conciliação eterna, Mad Max e Waterworld. De forma inédita não estamos nas mãos de um ou dois homens, muito menos fadados a um destino inexorável, mas na tutela de vários, todos culpados, uns menos e outros mais. Todavia, a maior ameaça não é ao Planeta, mas à vida como conhecemos. A Terra permanecerá e dela surgirão novas espécies. Contudo o mundo deixa de existir, já que ele só existe como uma convenção nossa. Esta é a hora e a vez, do nosso divórcio com o Planeta. Já não somos seguros em um mundo inimigo, que nos maltrata com inundações e incêndios; regurgita nosso lixo; adoece com nosso esgoto; intoxica-se com nossos gases...
E aos homens, o que acontecerá? Quem sabe no futuro, seremos nós os Extraterrenos, que após esgotar a própria terra sairão a procurar novos mundos. Já fomos macacos, e ansiamos por andróides e clones, porém permanecemos fetos a um passo da humanidade. Perseguimos o Humano como um cão que tenta fisgar o próprio rabo. Nossa Odisséia é um espetáculo de mitos, medos e presunção. Acreditamos que o controle é nosso, mas agimos pelo acaso, furtivamente inconsequentes. Assim, criamos todos os mecanismos para a autodestruição e passamos a temê-los, perpassando por deuses e monstros até mísseis e cataclismos. De nossas Ficções, só mantemos o pior delas.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
"Sou Brasileiro!"
A ironia do ufanismo brasileiro é acentuada a cada dia. Podemos dizer que o nacionalismo no Brasil possui realmente peculiaridades. Os brasileiros têm uma impressionante afinidade com a nação, simultâneo a um impressionante descaso. A ojeriza á regras, a dissimulação do preconceito e a falta de alteridade da sociedade brasileira refletem profundamente o caráter nacional.
Quem corrompe as regras tem um arsenal de justificativas para fazê-lo e as julgam como direitos inalienáveis, enquanto os que aceitam tal corrupção, o fazem menos por falta de discernimento ou displicência, mas por saberem que sua vez de também corromper chegará. Assim, aceitam a utilização de intermediários para a solução de entraves burocráticos, ou que dirijam a
Assim, perpetuamos no Brasil os “bodes-expiatórios” para as nossas falhas e cultivamos uma série de desvios como normais e necessários a nossa sobrevivência. Talvez, acreditemos no Brasil, mas, ao que parece, em momento algum perderemos a nossa pretensão de transformar o público
domingo, 25 de janeiro de 2009
Começo
Como se as guerras pudessem parar, resolvemos começar a exprimir nossas impressões aos demais. De começo conto com uma companhia, que espero se multiplique em outras pessoas com os mesmos afins. Bem vindos, assim espero, as idéias e impressões sobre o mundo e a vida que giram em torno de uma restrita variedade de assuntos.