terça-feira, 17 de março de 2009

Favelas

As favelas ainda representam uma ruptura no conceito de cidade, perceptível pelas formas mais sutis de preconceito. Existe um generalizado receio em relação a elas, fruto de um difundido juízo de desordem e criminalidade que lhes é imputado. Através da simbologia que as favelas suscitam acontece uma continua precarização de sua relação com a cidade. Atualmente cada vez mais o narcotráfico se sobrepõe, principalmente através da mídia, à imagem da favela, o que pode tornar, ainda mais, incerto a sua legitimação social e espacial. 

A familiaridade cotidiana não reduz necessariamente o estigma e mesmo aqueles que estão próximos às favelas conseguem, com bastante habilidade, manter os seus preconceitos. A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias. Os ambientes sociais estabelecem as categorias que têm probabilidade de serem neles encontrados. Baseando-nos nessas pré-concepções, nós as transformamos em expectativas para determinados grupos e em exigências apresentadas de modo rigoroso, neste caso criamos a categoria do “favelado”. Os olhares dirigidos à favela são carregados de estereótipos e temores, consequentemente este julgamento também se volta aos seus moradores.

O estudo da história demográfica das principais cidades brasileiras demonstra que as favelas foram surgindo, principalmente, devido à inoperância pública para a criação de moradias aos trabalhadores. Ao migrar em busca de trabalho para as cidades, a escassez de moradias populares fez com que estes operários acabassem ocupando as áreas onde aparentemente era improvável a criação de um “mercado imobiliário”, como: morros, margens de rios e córregos, terras e edificações abandonadas. Desde então, criaram se nestes locais complexas relações de interação social e cultural.

Atualmente as favelas oscilam entre a salvação e a degeneração das metropoles. Este maniqueísmo em relação a sua existência é fruto, por um lado, de uma falta de perspectiva para o problema habitacional, sendo assim, a favela é uma forma “criativa” de solução; além do mais, nas favelas ocorreu a gênese dos expoentes mais autênticos de nossa cultura, como o Samba e o Funk Carioca. Por outro lado, as favelas são interpretadas como guetos, que tem que ser eliminados, pois configuram a desordem e, principalmente, são gestoras da violência nas cidades. O que poucos vêem é que a mesma ordem perpetuada nas favelas está inserida por toda a cidade. Irregularidades de construção, criação de condomínios fechados, apropriação de áreas públicas, são fenômenos ilegais e comuns às áreas mais nobres das cidades. Contudo nestes casos o Estado é permissivo e a sociedade omissa. 

Um comentário:

Vinicius Carvalho disse...

É nítido e saliente o preconceito da sociedade em relação as favelas. Foi criado de maneira majoritária pela classe de maior poder aquisitivo todo um mito e uma relação de repudio com relação a este “modo de habitação”... não só ao modo, como também a quem habita estes conjuntos.

Lembro de uma vez ter lido afirmações preconceituosas da deputada Frossard sobre o ambiente das favelas, que ela uma vez criticada, como sempre, tentou justificar como um mal entendido seu relato, o que pra mim retratou a ignorância de tal personalidade sobre o tema que vejo que ainda há muitas abordagens a se fazer.

O que a sociedade precisa procurar entender acima de tudo é que a favela nada mais é que o resultado criativo de uma parte da população que precisa morar.

Engana-se quem pensa que a solução exclusiva para a questão da favela é a remoção. Aliás, não é um engano, é um erro pensar assim. Em alguns casos até pode caber a retirada, avaliando de forma consciente se o ambeinte em questão apresenta algum risco ou problema relevante e real que justifique a ação.

Muitos estudos e pesquisas que se aprofundam na busca de soluções criativas para dar mais dignidade a quem hoje mora nestes ambientes chegam a conclusão de que não há regra e nem mágica para eles, cada caso é um caso. A manutenção das pessoas junto ao ambiente e território onde vivem é uma forma de manter a memória e a identidade dos moradores. Acima de tudo, manter o respeito, o elo afetivo, o lado humano de cada um que habita o local.

A transformação de favelas em bairros encontrou soluções interessantes em varias capitais. As vezes é melhor reconhecer os esforços públicos que levaram algumas melhorias a estes ambientes, ampliando-os, do que jogando tudo abaixo. É também interessante reconhecer os esforços individuais e familiares dos moradores, do filho que emenda a casa do pai erguida sobre a laje da casa dos avós.

É interessante também observar de uma maneira bem minuciosa que cada real investido pelo governo na melhoria urbana e na instalação de ambientes publicos como creches, escolas, postos de saúde, quadras de esporte, etc, a maioria dos moradores investem também em pequenas melhorias nas suas habitações.

O legal nestes casos é o envolvimento das comunidades não só na escolha e decisão do projeto ideal, mas na sua participação, na construção, nos serviços ou mesmo na montagem de mutirões. Esta participação aumenta a auto-estima e o zelo com as obras realizadas gerando no futuro a redução nos gastos com manutenção para o governo.

Por fim, quero fechar minha opniao voltando à questão do estigma e do rótulo que se dá aos moradores das favelas. É preciso romper o preconceito contra o povo pobre que lá mora. A favela às vezes cheira mal porque o esgoto está a céu aberto e o lixeiro não tem estes endereços como rotas, porém, ao contrário de outros espaços urbanos, por lá é mais fácil se encontrar amizade, solidariedade e calor humano. Estes sentimentos fazem uma favelada repartir o bolo com a vizinha que toma conta do seu filho, enquanto esta realiza a faxina que complementará a sua renda.