terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Apocalipse Now.

No decorrer da minha vida uma interrogação sempre foi constante: como e quando o mundo iria acabar! Nasci em 1981, e desde criança constantemente era submetida a esta agonia. De alguma forma o Planeta Terra deixaria de existir, é certo, só restava saber como.

Quem nasceu no final da década de 70 e início da década de 80, passou parte da infância sob a atmosfera da Guerra Fria. Por mais próximo que o mundo estivesse do fim da URSS, a grande luta, Rocky Balboa x Ivan Drago, representava, para mim, a tensão existente no mundo. Constantemente eu era alertado da tenuidade que nos separavam da guerra total, nossas vidas dependiam do humor de alguns homens. Havia na minha imaginação dois sujeitos ranzinzas, um em cada lado do mundo, que permaneciam sentados em uma sala com olhos fixos em uma grande tela cheia de pontos verdes piscando. Do lado esquerdo de ambos havia um telefone, e à frente, como um joystick de Atari, um botão vermelho, que ao ser pressionado destruiria todo o planeta. O polegar destes homens permanecia a 2 cm do botão, distância precisa para revidar o ataque inimigo a tempo. A guerra final permeou meu pré-sono durante alguns anos; era uma incógnita haver dois homens tão egoístas.

Ano de 1989 - queda do Muro de Berlim. Pronto, não haverá mais a guerra! Como tinha entre 8 e 9 anos, era suficiente para eu acreditar que estávamos salvos. Mas quando menos esperava, um novo fato: um meteoro, que poderia chocar-se com a Terra a qualquer momento. O planeta seria como uma bola chutada pelo Zico, mas ao invés de irmos pro gol, iríamos explodir, sumiríamos, sem ter a quem apelar. Nem eram mais os homens que estavam no controle, mas o acaso. Dependíamos da sorte, estávamos no meio de um universo à deriva, no caminho de milhares de pedras gigantes que flutuavam em direção a Terra. Contudo alguns cientistas refizeram os cálculos e chegaram à conclusão de que não seria daquela vez, mas daqui a alguns mil anos que o meteoro chegaria. Controlei meu pânico, pois mesmo se fosse mentira era melhor a ilusão de que estávamos seguros. Nesse momento pensei em meus filhos, e decidi não tê-los, já que poderiam ser os filhos dos seus filhos os atingidos pelos meteoros caso os cientistas estivessem certos.

Nesta mesma época fui alertado do verdadeiro Apocalipse: o Fim do Mundo em 2000. Assim já era demais, nem os homens, muito menos o acaso, mas sim um castigo! O pior era que, de acordo com minha tia, iríamos morrer no fogo. De acordo com ela O Fim do Mundo anterior havia acontecido pela água, O Dilúvio. Assim sendo, o próximo Juízo Final seria pelo fogo, ou seja, o Fim do Mundo oscilava entre água e fogo. Nessa época a minha maior angustia já não era pela humanidade, mas o meu azar pelo fim do mundo ser exatamente 2 dias após eu fazer 18 anos! Seria adulto finalmente, livre, poderia tirar dinheiro no banco, mas o mundo iria acabar, e eu ainda iria morrer queimado... Como eu preferia que fosse outro Dilúvio! Ainda teria tempo de aprender a nadar, construir uma balsa, talvez uma arca; mas fogo, nem com roupa especial! Pude constatar, 10 anos depois, que o mundo não acabaria. Completei meus 18 anos, e na passagem de ano ainda esperei um terremoto de nível 20, como uma onda remexendo toda terra e expelindo lava por todos os lados, mas não aconteceu.

A década de 90 foi a vez dos Extraterrestres. Em meados de 1990 surgiram o Chupa Cabra e o ET de Varginha, ambos com menor poder de permear minha imaginação, mas a cada caso relatado aos domingos pelo Fantástico, mais aumentava minha apreensão. Além do mais, enquanto os atuais casos eram relatados, casos antigos eram relembrados como o Caso Roswell, no Novo México e Operação Prato, no Pará, acrescentando ingredientes aos fatos. De certa forma, em relação à existência de Óvnis ou ETs, foi menor o medo que a curiosidade. No final das contas, se fosse possível escolher uma forma de aniquilamento, a invasão de outra civilização seria bem excitante e curioso, além do mais iria ter uma boa briga, tipo Guerra dos Mundos e Independece Day!     

Em 2001 sentimos um resquício do medo por causa do terrorismo, mas para o Brasil foi quase inócuo, nada que ultrapassasse do cinema para a vida real. Contudo, parece que para os afegãos e os iraquianos de certa forma o mundo vai acabando, assim como para os palestinos e outros povos. Em cada guerra homens e seus joysticks vão causando pequenos apocalipses, encerrando pessoas, famílias, cidades e países.    

Chegamos, enfim, à vanguarda dos apocalipses: o Aquecimento Global.  Curiosamente ele é um pouco de todos os Fins, pois oscila entre o fogo e a água, os dilúvios e as secas, a fartura e a escassez, a Guerra definitiva e a conciliação eterna, Mad Max e Waterworld. De forma inédita não estamos nas mãos de um ou dois homens, muito menos fadados a um destino inexorável, mas na tutela de vários, todos culpados, uns menos e outros mais. Todavia, a maior ameaça não é ao Planeta, mas à vida como conhecemos. A Terra permanecerá e dela surgirão novas espécies. Contudo o mundo deixa de existir, já que ele só existe como uma convenção nossa. Esta é a hora e a vez, do nosso divórcio com o Planeta. Já não somos seguros em um mundo inimigo, que nos maltrata com inundações e incêndios; regurgita nosso lixo; adoece com nosso esgoto; intoxica-se com nossos gases...

E aos homens, o que acontecerá? Quem sabe no futuro, seremos nós os Extraterrenos, que após esgotar a própria terra sairão a procurar novos mundos. Já fomos macacos, e ansiamos por andróides e clones, porém permanecemos fetos a um passo da humanidade. Perseguimos o Humano como um cão que tenta fisgar o próprio rabo.  Nossa Odisséia é um espetáculo de mitos, medos e presunção. Acreditamos que o controle é nosso, mas agimos pelo acaso, furtivamente inconsequentes. Assim, criamos todos os mecanismos para a autodestruição e passamos a temê-los, perpassando por deuses e monstros até mísseis e cataclismos. De nossas Ficções, só mantemos o pior delas. 

sábado, 7 de fevereiro de 2009

"Sou Brasileiro!"

A ironia do ufanismo brasileiro é acentuada a cada dia. Podemos dizer que o nacionalismo no Brasil possui realmente peculiaridades. Os brasileiros têm uma impressionante afinidade com a nação, simultâneo a um impressionante descaso. A ojeriza á regras, a dissimulação do preconceito e a falta de alteridade da sociedade brasileira refletem profundamente o caráter nacional.

O brasileiro ama o Brasil, pois temos a liberdade autêntica, e cada brasileiro possui a característica inata do julgamento. Cada um sabe o que é bom para ele e seus compatriotas. Se não fosse assim, não teríamos aqueles maravilhosos carros de som, um dos exemplos de altruísmo nacional, que percorrem os bairros das cidades distribuindo música para todos, todavia, excetuando essa, a pratica do nosso nacionalismo também é a usurpação das repartições com se fossem a escrivaninha de casa, uma politicalha que faz do governo um canalizador de ganhos próprios, além dos já banalizados avanços de sinal, desrespeito ao pedestre, estacionamento proibido, excesso de velocidade, assaltos e furtos.

Quem corrompe as regras tem um arsenal de justificativas para fazê-lo e as julgam como direitos inalienáveis, enquanto os que aceitam tal corrupção, o fazem menos por falta de discernimento ou displicência, mas por saberem que sua vez de também corromper chegará. Assim, aceitam a utilização de intermediários para a solução de entraves burocráticos, ou que dirijam a 80 km em ruas de bairros residenciais, ou paguem e recebam propina, pois no final todos querem possuir a “liberdade” e facilidade de fazer o mesmo. O público acaba por tornar-se privado, já que tudo passa a funcionar através de uma ética do particular, que com o decorrer da história passa a ser assimilado e repetido por toda a sociedade.

Além do mais, como nossa capacidade de julgamento é inata, temos a tendência de nunca estarmos errados, sendo todas as nossas atitudes certeiras. Quando acontece um erro de cálculo, um acidente, a culpa é do acidentado, que entrou na frente do carro, ou o álibi é a violência, “estava fugindo de dois motoqueiros!”, ou, “achado não é roubado”, irresponsável é quem perdeu. Temos, enfim, um perverso talento para acharmos culpados com facilidade e arbitrariamente incriminá-los.

Assim, perpetuamos no Brasil os “bodes-expiatórios” para as nossas falhas e cultivamos uma série de desvios como normais e necessários a nossa sobrevivência. Talvez, acreditemos no Brasil, mas, ao que parece, em momento algum perderemos a nossa pretensão de transformar o público em privado. Todas as tentativas de universalização de direitos mais destituíram do que agregaram liberdade ao povo: a saúde, a educação, o transporte, a justiça, só funcionam quando privados. E o resto, que dê seu jeito, pois este país é uma beleza que só vendo!